quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

A erradicação é a melhor estratégia progressista à pandemia do novo coronavírus

O romance pós-apocalíptico The Day of the Triffids foi publicado por John Wyndham em 1951. A premissa desta história de ficção científica anda à volta de um fenómeno astronómico que é observado a nível mundial. No dia seguinte, todos os que observaram o fenómeno supostamente inofensivo - uma maioria da população - acordam cegos.

Uma das premissas da estratégia de mitigação da pandemia a SARS-CoV-2 (COVID-19) é a de que a esmagadora maioria dos infectados recuperam incólumes da doença e vivem felizes para sempre. De acordo com esta estratégia, temos que aprender a viver com o vírus, o mesmo vai tornar-se endémico e em breve, com a ajuda da vacinação, a sociedade voltará ao normal.

A estratégia de mitigação parte de uma minimização dos custos do vírus na sociedade; as vítimas mortais têm sido percepcionadas como maioritariamente as pessoas já desvalorizadas pela sociedade - idosos ou pessoas com doenças - e por isso tem sido fácil para muitos mostrar disponibilidade para deixar morrer estas pessoas como se nada se pudesse fazer.

Para esta percepção contribuiu, e muito, a sonegação continua de informação por parte do Governo e Direcção Geral da Saúde (DGS); enquanto tem sido do interesse da Tutela publicitar as idades das vítimas mortais, para desvalorizar o impacto da pandemia por serem mais velhas, já a idade das pessoas internadas em enfermarias e das internadas em cuidados intensivos tem sido, repetidamente, escondida. Não é do interesse do Governo/DGS que se perceba o verdadeiro impacto da doença na população activa e mais jovem; assim, a sociedade aceita com maior facilidade o resultado da incompetência das autoridades em controlar e suprimir a pandemia em Portugal.

Quem passa pelos cuidados intensivos e sobrevive é dado como recuperado, ponto final. Se já há muito se sabe que isso não é assim tão simples - uma estadia em cuidados intensivos deixa sequelas marcadas em qualquer pessoa - começa a surgir evidência que demonstra um aumento significativo da mortalidade após a recuperação de quem padeceu da forma grave da COVID-19, mesmo que não tenha sido necessário internamento em cuidados intensivos.

Um estudo acabado de publicar examinou o risco de morte de pessoas que tiveram sintomatologia grave da doença e concluiu que o risco de morte aumentou para o dobro para doentes recuperados com mais de 65 anos e para o triplo em doentes recuperados com menos de 65 anos. A amostra não é muito grande, mas não é o primeiro estudo a mostrar este risco, ou seja, começa a haver evidência sobre o impacto a longo prazo da doença em que a contraiu e 'recuperou'. Em Portugal, mais de 10% da população já esteve infectada. Quantos tiveram doença grave? Não sabemos. O Governo e DGS escondem os números.

Este aumento de mortalidade pós-infecção poderá já a estar a acontecer em Portugal. Apesar de se afirmar que morrem agora muitos menos pessoas com COVID-19 do que há um ano, a verdade é que a diferença na mortalidade total por todas as causas entre o presente e o mesmo período há um ano é muito menor do que a diferença entre os óbitos com COVID-19. Neste momento, a média corrente de sete dias de óbitos com COVID-19 em Portugal ronda as 11-12 vítimas mortais, enquanto há um ano era de 76-77 vítimas mortais, uma diferença de 65 óbitos. Mas se há um ano por esta altura morriam cerca de 76-77 pessoas acima do esperado de acordo com a média de 2015-2019, agora estão a morrer 56-57 pessoas acima do esperado de acordo com a mesma média. Ou seja, a diferença de 65 óbitos a mais com COVID-19 há um ano, traduz-se num aumento de mortalidade total de apenas 20 óbitos em comparação com o mesmo período deste ano. Mas porque morrem mais 40-45 pessoas diariamente do que o esperado sem ser por COVID-19? O colapso REAL do SNS, principalmente nos cuidados de saúde primários e principalmente no distrito de Lisboa, explicará parte deste aumento da mortalidade não COVID-19 deste ano. Mas arrisco afirmar que a mortalidade  a longo prazo, secundária à COVID-19, é outro factor.

A diferença nos óbitos com COVID-19 entre há um ano (76-77 pessoas) e o mesmo período agora (11-12 pessoas) ronda os 65 óbitos.


Mas a diferença no excesso de mortalidade entre há um ano (76-77 pessoas) e o mesmo período agora (56-57 pessoas) é de apenas cerca de 20 óbitos, muito menor do que a diferença entre os óbitos COVID-19.


O excesso de mortalidade tem sido uma constante em Portugal nos anos de 2020 e 2021, levando a uma significativa diminuição da esperança média de vida. Este ano, por exemplo, desde 1 de Julho que existe um excesso de mortalidade contínuo que não é directamente explicado pela pandemia; as mortes secundárias à infecção e o colapso assistencial explicarão grande parte desta mortalidade continuamente acima do esperado. Desde o início da pandemia, em Março de 2020, já morreram em Portugal mais 27 mil pessoas do que seria esperado pela média de 2015-2019.


Com o número de novos casos a aumentar, a aparente estabilidade das últimas semanas no número de óbitos irá também mudar, infelizmente.


Considero, por isto tudo, que os riscos da infecção podem vir a mostrar-se ainda mais marcados do que é assumido na estratégia de mitigação que foi adoptada. E podemos apenas estar no início desta realização. Um estudo laboratorial de pequena dimensão com macacos mostrou que a infecção neste animais resultava no aparecimento de marcadores cerebrais que em humanos estão presentes em doentes de doença de Parkinson. O mesmo acontece em humanos? Não sabemos. Repito. Não sabemos. Não sabemos se, como no livro pós-apocalíptico "The day of the Triffids", daqui a alguns anos não teremos percentagens elevadas da população a desenvolver sintomas neurológicos por terem contraído a COVID-19, com as consequências que daí advirão.

O princípio precaucionário da saúde pública tem sido sistematicamente abandonado e vemos epidemiologistas e médicos de saúde pública, repetidamente, a falar em impactos económicos e a querer fazer política. O seu papel não é esse, o seu papel é proteger as populações.

A ventilação é a medida esquecida da luta contra a COVID-19

Pouco a pouco, a Tutela tem passado a responsabilidade da luta contra a pandemia para o indivíduo, numa visão profundamente neo-liberal do mundo. As pessoas infectam-se porque não têm cuidado, infectam-se porque não estão vacinadas, infectam-se porque não usam máscara, etc.. Parece que o Governo e DGS são meros observadores do que se passa, sem capacidade de intervenção.

As duas principais medidas comunitárias - e por isso de responsabilidade governamental - que podem levar a uma diminuição drástica da taxa de infecção na população têm falhado catastroficamente. A primeira medida é o testar - isolar - rastrear. Sem dotar os gabinetes de saúde pública de meios suficientes, tornou-se impossível tornar efectiva no país a principal forma de lutar contra a pandemia. Repetidamente, o Governo tem negado meios à saúde pública. Como exemplo, só a semana passada voltou a ser autorizada por algumas administrações de Agrupamentos de Centros de Saúde (ACES) o recurso a horas extraordinárias prestadas por médicos a fazer o Internato Geral para reforçar a resposta dos Gabinetes de Saúde Pública. Ou seja, é uma escolha política negar mais recursos e forçar os médicos de saúde pública a correr atrás do prejuízo; sempre que os números de infecção baixam e o rastreio começa a ser mais eficaz, o Governo retira os poucos meios disponíveis e só os volta a aumentar quando já é tarde. Desta forma, o número de casos activos em Portugal não diminui abaixo dos 25 a 30 mil desde o início da pandemia. Ou seja, em vez de reforçar os meios precisamente quando eles seria mais eficazes, de forma a conseguir reduzir os casos activos a dezenas, o Governo tem escolhido aceitar 25 a 30 mil casos activos como a base da pandemia em Portugal.

Basta conhecer um pouco a função exponencial para perceber que é muito diferente começar a ter mais casos a partir de uma base de 25, 250, 2500 ou 25 mil. A DGS reduz-se hoje a alertar para o possível crescimento de casos como se não se estivesse a declarar publicamente incompetente. Aparentemente, a DGS nada tem a ver com o controlo da pandemia. Em bom discurso neoliberal, o Estado afirma não ter um papel a desempenhar e passa para as pessoas essa responsabilidade.

Além do testar - isolar - rastrear, a outra arma de luta contra a pandemia que caberia ao Governo liderar passa pela ventilação dos espaços. A ventilação é mais eficaz que o uso de máscaras, só que usar máscaras depende das pessoas, a ventilação depende do Governo. Não é difícil perceber porque o Governo escolhe apenas falar em máscaras...

A evidência para o papel da ventilação na prevenção de infecções em espaços fechados é grande. A revista científica Acta Médica Portuguesa acabou de publicar um número com três artigos sobre este tema (aqui, aqui e aqui). Como se pode melhorar a ventilação? Abrindo janelas, aumentando a taxa de renovação de ar na ventilação mecânica de edifícios, filtrando o ar com filtros HEPA, diminuindo o tempo de estadia de um grupo no interior de uma sala e melhorando a qualidade das máscaras usadas para diminuir a quantidade de vírus no ar. E como se pode monitorizar estas medidas? Usando medidores da qualidade do ar, como medidores de dióxido de carbono (CO2), por exemplo.

De todas estas medidas de ventilação, nenhuma está a ser implementada pelo Estado em Portugal, que eu saiba. O Governo apenas disponibiliza máscaras sociais - as piores! - aos alunos das escolas públicas, e demitiu-se de qualquer medida relacionada com a ventilação. Isto apesar de, por exemplo, haver evidência de que um simples filtrador de ar portátil tem um enorme efeito na prevenção de infecções em enfermarias hospitalares. As formas de intervenção possíveis, que enumerei acima, não são novas. Ler por exemplo este artigo.

Felizmente, este tema tem sido levado mais a sério noutros países e existem planos disponíveis online para qualquer pessoa conseguir fazer um filtrador de ar eficiente, há universidades onde é a comunidade académica que os está a fazer e a distribuir pelas salas.

A COVID-19 é cada vez mais uma doença dos mais pobres

Estamos todos juntos, uma ova. A pandemia tem matado de forma desproporcionada as pessoas mais vulneráveis da sociedade. Não só os mais velhos, mas também portadores de deficiência, os trabalhadores mais pobres, como trabalhadores agrícolas, os sem-abrigo, pessoas de minorias étnicas e sexuais. Esta é a questão que não pode ser ignorada por quem é de Esquerda. Com o desenvolvimento de tratamentos a que os mais pobres não terão acesso - se não têm acesso em muitos locais a vacinas, quanto mais a tratamentos caros - a COVID-19 vai ser cada vez mais uma doença dos mais pobres.

São também os mais pobres que mais são impactados pelas consequências económicas de uma pandemia descontrolada; são os mais pobres que perdem o emprego, que não têm rede de segurança, que vivem em casas sobre-lotadas onde o risco de infecção dentro da família é uma certeza.

Aceitar a estratégia de mitigação que temos seguido, de aceitar um nível basal de casos elevado, de aceitar as mortes até um certo limite, é aceitar a morte prematura dos mais pobres, é aceitar a clausura dos mais velhos e de saúde mais frágil que se vêm obrigados a refugiar-se em casa para tentar sobreviver. É também a estratégia que mais impactos tem na economia.

A erradicação é a melhor estratégia progressista à pandemia do novo coronavírus. É também a que tem melhores resultados em termos de economia, evitando os enormes custos criados por uma pandemia em constante ebulição, com o aparecimento de novas variantes. Só uma estratégia de erradicação pede um reforço constante dos gabinetes de saúde pública e exige medidas drásticas de melhoria de ventilação de serviços públicos e privados como escolas, hospitais, tribunais, centros de saúde. Aceitar a mitigação é aceitar a estratégia actual neoliberal de colocar o peso de prevenir a infecção e suportar os custos económicos da pandemia nas pessoas, de esperar que a pandemia passe, sem se importar com quantos morrem agora e morrerão no futuro próximo, quantos ficam desempregados, quantos ficam ainda mais pobres.

Que medidas que se podem adoptar a curto prazo?

1. Assumir uma estratégia de erradicação em vez de mitigação; só com esta estratégia se protege as pessoas e a economia.

2. Defender medidas concretas de melhoria da ventilação de edifícios e transportes públicos e de monitorização da qualidade do ar.

3. Chamar o Governo à responsabilidade pelo continuado sub-investimento nos Gabinetes de Saúde Pública.

4. Implementar mais testagem com recurso a testes rápidos de antigénio, gratuitos, em locais de grande circulação de pessoas, como metropolitano e comboios.

A erradicação da pobreza é uma ilusão? Talvez. Mas é isso razão para deixar de se lutar por ela, ter esse objectivo? Penso que não. O mesmo é verdade para a COVID-19. A estratégia de erradicação é a que permite ao mundo ressurgir da pandemia, protegendo os mais vulneráveis.





 
 




Sem comentários:

Enviar um comentário