domingo, 11 de março de 2018

Teixo, a árvore que deu o nome ao Tejo

Fotografia de teixo em Portugal, por Cristina Estima Ramalho (daqui) e gravura de teixo (daqui)

É uma das árvores mais raras de Portugal Continental, mas nem sempre foi assim. O teixo - Taxus baccata em latim - é uma árvore de folha perene que ainda persiste em alguns vales das Serras da Estrela e da Peneda e Gerês e, parece, também na Serra do Caramulo, o que desconhecia. Podem ver um mapa actual de distribuição da espécie na página da Flora-On (quadrículas com teixo a preto na imagem abaixo). Mas a sua distribuição já foi muito mais alargada, como mostra a abundância do topónimo teixeira por esse país fora.

Em Espanha, a distribuição do teixo, ou tejo como se diz em castelhano, é mais ampla, como também se pode ver na imagem abaixo (quadrículas com teixo a encarnado).
Mapa actual da distribuição do teixo em Portugal Continental (via Flora-On) e em Espanha (daqui).


A distribuição global da espécie pode ser vista no mapa abaixo, retirado daqui.

Mapa da distribuição global actual do teixo Taxus baccata. Imagem daqui.
O nome em latim para o teixo - taxus / taxo - é foneticamente extremamente próximo do nome em latim para o rio Tejo - Tagus. O nome do rio em português - Tejo - é exactamente a mesma palavra para designar o teixo em castelhano - tejo - sendo que em castelhano o nome do rio é Tajo. Em galego, o nome comum da árvore é teixo e o nome do rio é ... Texo, mostrando bem a proximidade fonética entre o x e o j nas nossas línguas latinas. Em aragonês, o nome do rio é Tacho e o nome da árvore é tajo, o mesmo nome do rio em castelhano. As semelhanças das designações para o rio e para a planta entre várias línguas ibéricas é enorme. Mera coincidência? Eu penso que não.



Acresce que o rio Tejo nasce nas Serra de Albarracin e Montes Universales, em Espanha. Quer nas montanhas em que nasce o rio Tejo quer nas montanhas de origem dos vários afluentes significativos da margem Norte no primeiro terço do rio Tejo (a margem Sul não tem afluentes importantes) ainda hoje existem teixos com relativa abundância, como se vê no mapa de distribuição da espécie em Espanha no presente (ver duas imagens acima). De facto, em Aragão, na Serra de Albarracín e na zona de Teruel, na bacia hidrográfica do Tejo, existem vários exemplares de teixo protegidos pela sua monumentalidade (ver página 16 deste documento). Tudo indica que esta abundância fosse mais significativa há mais de dois milénios, quando decorria o processo de colonização da Península Ibérica por povos mediterrânicos. Existe, desta forma, uma relação geográfica entre o rio Tejo e abundância de teixo.

Bacia Hidrográfica do rio Tejo em Espanha (imagem daqui). Note-se a zona montanhosa a cinza escuro a Este, Norte e Noroeste do início da bacia, habitat de teixos até ao presente.

Existe, ainda, uma conhecida valorização do teixo quer pela Cultura Celta quer por Roma Antiga. Os povos celtas que habitavam parte da Península Ibérica há >2000 anos tinham uma relação de culto com o teixo e ainda hoje subsistem exemplares monumentais pré-cristãos no Norte da Península. O mesmo se repete em outras áreas europeias onde a cultura Celta subsistiu mais tempo, como na Bretanha, País de Gales e Irlanda. Ao mesmo tempo, a madeira de teixo, pelas suas propriedades, era muito procurada para ser usada no fabrico de armas, procura essa a que uma civilização bélica como a Romana não era alheia. Ainda hoje a madeira de teixo é considerada uma madeira de excelência para fazer arcos para flechas e a sua procura ao longo dos séculos conduziu, por exemplo, à sua quase extinção no Reino Unido na Idade Medieval.

E de facto, segundo Estrabão que descreve este território na sua obra Geografia (Livro III, Capítulo 4, 12) a zona onde nasce e corre o rio Tejo estaria povoada por tribos de descendência celta, os denominados Celtiberos. A identificação desta zona é mais fácil de visualizar num mapa da Península Ibérica feito a partir das descrições de Estrabão (ver abaixo) onde se vê a coincidência entre a Celtibéria e a alta bacia hidrográfica do rio Tejo.

Mapa da Península Ibérica de acordo com a descrição feita por Estrabão na sua obra Geografia.


Esta relação da toponímia com o teixo na Península Ibérica poderá ser ainda mais marcada e anterior à colonização romana. Vários autores consideram o fitónimo celta *eburos como sinónimo de teixo (mas esta interpretação não é unânime, veja-se esta discussão sobre esta questão). Este fitónimo está na origem do nome da cidade de Évora, por exemplo. Leia-se o excerto abaixo, retirado deste texto,  onde se refere a importância cultural do teixo nessas sociedades e a implicação quanto ao seu uso no nome de povos, lugares e mesmo uma divindade Eburianus.

Passagem de um texto de Francisco Marco Simón intitulado "Religion and Religious practices of the Ancient Celts of the Iberian Península" que pode ser consultado aqui.
 
Não me parece, por isso, implausível que a abundância do teixo nas serras onde nasce o rio Tejo, a importância cultural que esta árvore tinha para os povos locais e a procura deste recurso por parte de Roma resultasse no nome da planta ser atribuído ao próprio rio pelos romanos. A subsistência até aos nossos dias da proximidade fonética entre os nomes do rio e da planta nas várias línguas latinas da Península Ibérica são, para mim, mais do que mera coincidência.

Devo notar que esta teoria que defende uma relação entre o nome do rio Tejo e do teixo é apenas mais uma da míriade de teorias que existem sobre a origem do nome do rio. Li-a de forma simplificada algures na internet, há uns anos (não tenho registo aonde) e aqui apenas me limitei a tentar argumentar em seu favor, visto me parecer uma teoria simples e verosímel mas muito pouco divulgada.

Em Lisboa, onde desagua o Tejo, podem-se visitar vários exemplares de teixo em jardins. No Jardim Braamcamp Freire, no Campo de Mártires da Pátria, por exemplo, existe um exemplar classificado (ver foto abaixo). Outros exemplares existem pela cidade, no Príncipe Real, por exemplo. Mas nunca vi esta possível relação entre o teixo e o nome do rio Tejo exposta em nenhum lado.

Teixo Taxus baccata classificado no Jardim Braamcamp Freire. Ao fundo ainda se vê o pinheiro-manso que viria a cair numa tempestade em 2014. Foto daqui.

Foto de Alves Gaspar daqui.
Curiosamente, também em Lisboa, na Avenida da Liberdade, o Monumento aos Mortos da Grande Guerra (imagem à esquerda) foi há alguns anos rodeado por vários teixos em topiária, renovando a antiga associação da cultura Celta desta planta com os mortos. Esta renovada associação torna-se ainda mais simbólica por estarmos em Lisboa, a maior e mais importante cidade banhada pelo rio Tejo, e onde encontramos a sua foz.

Talvez valesse a pena a cidade prestar uma homenagem mais explícita à planta que terá dado o nome ao seu rio.

Ficam aqui os meus argumentos em defesa desta teoria.









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